A conquista da "passagem noroeste" trouxe fama e capital para financiar a tão sonhada viagem ao pólo norte, o último grande desafio do Ártico. Amundsen conseguiu emprestado o navio "Fram", que pertencia a seu compatriota e também explorador polar Fridtjof Nansen, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1922.
Os preparativos estavam de vento em popa quando o americano Robert Peary chegou ao pólo norte em 6 de abril de 1909. No mesmo instante em que recebeu a notícia, Amundsen decidiu mudar radicalmente de destino.
"Para salvar a expedição, era necessário agir rapidamente e sem hesitação", escreveu Amundsen em seu livro "The South Pole"*. Depois da conquista de Peary, a última grande conquista era o pólo sul e, cheio de dívidas, Amundsen decidiu que precisava ter um grande feito.
Mas esta decisão permaneceria em segredo por um ano. Era público que o inglês Robert Falcon Scott estava partindo naquele ano para a sua segunda tentativa de conquistar o pólo sul. Amundsen temia que autoridades norueguesas interferissem no assunto para evitar a disputa com os britânicos, de quem dependiam economicamente.
Em "The South Pole", Amundsen escreveu: "Se, naquela situação, eu tivesse tornado minhas intenções públicas, apenas teria causado muitas discussões nos jornais e possivelmente acabado com o projeto".
Assim, a mudança de plano foi revelada para a tripulação do "Fram" e para o mundo quando a expedição estava na última escala antes de rumar para a Antártida, na Ilha da Madeira.
O "Fram" aportou na barreira de Ross em 14 de janeiro de 1911. Amundsen apostou nos conhecimentos adquiridos junto aos Inuit, por isso, a bordo estavam trenós leves, esquis, suprimentos para 2 anos e 97 dos melhores cães da Groelândia.
O explorador acreditava nos cães por serem pequenos e ágeis o suficiente para passar as frágeis passagens no gelo da barreira de Ross. Além disso, quando não conseguem mais trabalhar, podem ser usados como alimento para os outros cães e também para a equipe. Em "The South Pole", Amundsen escreveu: "...e se quiséssemos um pedaço de carne fresca, tirávamos um delicado filé que, para nós, tinha o sabor tão bom quanto os melhores cortes de boi".
Uma base foi estabelecida na Baía das Baleias, local com fauna abundante com muitas focas e pingüims que forneceriam carne para a equipe. Foram montados 3 depósitos de suprimentos. Mais de meia tonelada de suprimentos foram guardados a 480 km do pólo. Preparativos realizados, agora restava esperar a próxima primavera para começar a jornada para o pólo.
Em 19 de outubro, finalmente 5 homens começaram a jornada pela barreira de Ross equipados com 4 trenós puxados por 13 cães cada. Amundsen e seus companheiros chegaram até o último ponto de apoio estabelecido no verão anterior em 4 de novembro.
A viagem seguiu sem grandes dificuldades até que o grupo chegou a Glaciar Axel Heiberg. Mas, o treinamento e a habilidade compensaram. A equipe conseguiu levar mais de uma tonelada de suprimentos a uma elevação de mais de 3.000 m em apenas 4 dias.
Em 8 de dezembro, eles chegaram a latitude 88º 23'S. O ponto onde o sir Ernest Shackleton foi obrigado a voltar em 1907. Um recorde já havia sido quebrado. Faltavam menos de 160 km para o pólo.
A partir desse momento, a ansiedade aumentou. Amundsen e seus companheiros temiam que Scott chegasse antes dele. Assim, mesmo com os bolhas, rostos congelados, cães exaustos e famintos, o grupo continuou em velocidade máxima até o histórico 14 de dezembro.
Scott chegou ao pólo um mês depois. Encontrou a bandeira norueguesa feita de seda e um bilhete de Amundsen pedindo para que seu feito fosse registrado, caso não conseguisse retornar à civilização.
Mas foi Scott que não conseguiu voltar. O inglês e seus 2 últimos companheiros sobreviventes morreram de fome e frio a apenas 18 km de um depósito de provisões que os teria ter salvado.
A expedição de Scott teve problemas desde o início. Ao invés de cães, pretendia usar trenós a gasolina e pôneis siberianos sobre a barreira de Ross e chegar ao pólo caminhando. Os trenós motorizados quebraram e os pôneis siberianos se mostraram inadequados para a Antártida. As patas afundavam na neve e o suor congelava o pêlo deles. Os cães transpiram pela boca.
Depois da tragédia de Scott, Amundsen foi ainda mais criticado por ter mantido os planos em segredo. Os mais radicais chegaram a responsabiliza-lo pela morte do herói inglês.
O norueguês justificou: "Nossos preparativos eram tão diferentes que eu duvido que o Capitão Scott, com seu grande conhecimento da exploração polar, não deixaria de usar a própria experiência adquirida na região e alterado seus equipamentos da mesma maneira em que eu achei melhor empregar".

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